terça-feira, 25 de julho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A princesa e a cigana

(Continuação da postagem de 24jul2017)
ATÉ HOJE os árabes se referem com admiração e orgulho ao nome de Al-Mansur, o famoso califa de Bagdá. Foi um monarca generoso e justo. E, mais ainda, tolerante e bondoso.

O grande Al-Mansur, pai extremoso, tinha uma filha que era todo o encanto de sua vida. Halina (assim se chamava a princesinha) morava num suntuoso palácio que um arquiteto cristão fizera para o seu serviço. Possuía muitas jóias e os mais belos e ricos vestidos. Em seu toucador se enfileiravam os mais raros perfumes do Oriente. Mas, apesar do conforto em que vivia, atendida sempre em seus menores caprichos, rodeada de serviçais atentos e solícitos em agradá-la, a princesa não se sentia feliz.

Uma tarde, depois da terceira prece, o califa Al-Mansur, ao regressar de fatigante audiência com seus vizires, atravessou casualmente o jardim. O dia estava quente e abafado. No céu cor de pérola granizava um bando de gaivotas. Pequenas borboletas de asas amarelas volitavam por entre os canteiros. Ouvia-se o rumor doce e cantante do repuxo no meio dos rosais. De repente, o monarca viu a filha sozinha sentada na grama, de cabeça baixa, numa atitude denunciadora de grande tristeza, fitando atenta as sombras que se desenhavam no chão. Cabe aqui um esclarecimento assaz necessário: Halina, por esse tempo, contava pouco mais de dezoito anos.

Al-Mansur ficou apreensivo. Fazia já muitos dias, vinha observando na filha qualquer coisa de anormal. Estaria ela doente? Teria algum desgosto recalcado a afligir-lhe o coração?

Preocupado com o bem-estar da filha, o desvelado pai interrogou-a com muita brandura:

-- Que tens, minha querida? Por que foges constantemente ao convívio de tuas amigas e vens em busca da solidão? Queres que te mande buscar novas bailarinas? Desejas ouvir os músicos cegos que tocam cítara e cantam ao som dos alaúdes? Interessa-te uma excursão às montanhas ou uma peregrinação às ruínas de Kerbela? Vamos. Conta-me o que sentes que eu me empenharei em descobrir um meio de atenuar as tuas tristezas. Quero, para a minha perfeita felicidade, que a alegria volte a brilhar em teus olhos!


Interpelada desse modo a bondosa princesa respondeu com um sorriso triste.

-- Vivo torturada por um profundo desgosto, meu pai! E não acredito que haja remédio para o estranho mal que me oprime a alma e dilacera o coração.

-- Que mal é esse, minha filha? Será possível que estejas apaixonada por algum príncipe encantado?

Halina, depois de alguns momentos de meditativo silêncio, contou ao pai o trágico mistério de sua vida:

-- Uma noite, meu pai, achava-me no pavilhão das "Mil violetas", e já me preparava para um bom repouso, quando me veio da escuridão do parque o ladrar furioso dos cães de guarda. Seguiu-se estranho rumorejo de vozes e gritos angustiosos que se perdiam nas trevas espessas. Teria algum ladrão audaciosos escalado o muro e saltado para o jardim do palácio? Mandei que uma das escravas fosse indagar do que ocorrera. Passado algum tempo a escrava regressou com certa informação que me impressionou. Uma cigana, ao fugir de dois beduínos que a perseguiam, galgara o portão do palácio e fora atacada pelos cães bravios. Se os vigilantes não houvessem acorrido com presteza, a infeliz fugitiva teria sido estraçalhada pelos molossos. Penalizou-me a situação da pobre mulher. Quis conhecê-la. Determinei, pois, que a trouxessem à minha presença. Era meu desejo interrogá-la. Com grande surpresa vi, diante de mim, uma rapariga morena, robusta, de cabelos negros e simpática. As vestes estavam em frangalhos, sujas e ensanguentadas. A face direita lanhada, de alto a baixo, por golpe fundo, inspirava compaixão. A figura da jovem era trágica, impressionante. Por minha ordem as escravas pensaram-lhe os ferimentos e deram-lhe alimento. Falei-lhe com mansidão e simpatia. Pareceu-me, a princípio, desconfiada e talvez receosa. Vencida, porém, pela brandura com que lhe falávamos, tornou-se viva e loquaz. Contou-nos que se chamava Suraia, e que pertencia a uma tribo de nômades do deserto. Com alguns parentes viera a Bagdá em busca de remédios e víveres. "E que pretendiam de ti os beduínos?", perguntei-lhe. "Queriam matar-me", denunciou, arrebatada pela revolta. Compreendi que em torno daquela tragédia pairava algum penoso segredo. Para evitar o punhal de seus perseguidores, não hesitaram em atirar-se aos dentes de uma matilha de cães ferozes. Bem dizem os árabes: "Só sabe fugir, com verdadeira coragem, da morte, aquele que não tem nenhum amor à vida". A curiosidade apoderou-se de mim. Resolvi desvendar o mistério. Fiz com que as aias e escravas se retirassem e fiquei a sós no aposento com a cigana. "Quero saber a verdade!", declarei com firmeza. "Exijo que me contes tudo o que ocorreu". A beduína arrancou da barra do vestido um pequenino frasco escuro e disse-me impulsiva: "Eis aqui, princesa! Eis aqui o que os bandidos pretendiam: este frasco de perfume! E queres saber que perfume é este?"...


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