quinta-feira, 27 de julho de 2017

MALBA Tahan e seus contos maravilhosos!

A prodigiosa lenda do Sangalu

(Continuação da postagem de 25jul2017)




"... É O CÉLEBRE Sangalu, descoberto por um sábio da Armênia Depois de curto silêncio, a princesa retomou o fio da narrativa, erguendo a bela e nobre cabeça com movimento encantador. 

-- Eu ouvira, realmente, de uma escrava negra (quando ainda era menina) uma história complicada na qual aparecia esse perfume, o Sangalu. Jamais acreditei em sua existência. Para mim, tudo não passava de lenda, fantasia louca. Aquele que aspirasse o Sangalu (afirmavam os supersticiosos) adquiriria um dom extraordinário. Ficava com o poder de atrair, como se fosse um ímã encantado, os segredos de todas as pessoas que dele se aproximassem. E ali estava, nas mãos da cigana, o perigoso Sangalu! Disse a Suraia: "Dá-me, por um instante, esse frasco! Quero certificar-me da verdade". A cigana, com o olhar desvairado, obedeceu-me. Ajoelhou-se, porém, a meus pés e suplicou-me alucinada que nao aspirasse aquele infernal perfume. Seria para mim uma desgraça. Não lhe dei ouvidos. Repugnavam-me as crendices e superstições grosseiras da cigana. Abri o frasco e aspirei demoradamente o Sangalu. O aroma que exalava pareceu-me um misto de jasmim e bekum. Derramei uma gota na palma da mão e, a seguir, fechei novamente o frasco, devolvendo-o à rapariga. Aquele frasco (de acordo com a tradição dos árabes) tornara-se inútil: perdera todo o seu poder. Suraia afastou-se de mim, bradando, com quanta força tinha, em seu arrevesado dialeto: "Bacrun fir Halina bissir"! Não dei ao caso a menor importância. No dia seguinte, pela manhã, recomendei fosse entregu à cigana uma bolsa com cem dinares e deixei-a partir. Logo pela manhã verifiquei que a minha vida ia sofrer profunda alteação. Izzat, a bondosa escrava que me veio pentear, com uma vivacidade muito fora da sua habitual placidez, revelou-me dois gravíssimos segredos de sua vida. Fiquei impressionada. Izzat era do gênio retraído, muito calada, raramente falava. Seria aquilo influência do Sangalu? Já estaria eu, sem querer, atraindo os segredos alheios? Não. fora aquilo simples coincidência e nada mais. Recebo, porém, na terceira hora, a visita de Nacibe, esposa de um vizir, que vinha todos os dias bordar em minha companhia. Essa dama, que sempre se mostrava discreta, levou-me para um canto da sala e revelou-me nervosa, atropelando as palavras, várias particularidades espantosas da sua vida íntima. E, desse momento em diante, nunca mais tive sossego. Qualquer mulher que se acerca de mim entra, sem o menor recato, a desfiar-me um rosário de confidências. São casos tenebrosos de maridos, dos filhos e amigos. Algumas segredam-me com a maior simplicidade: "Quando chego junto de ti, princesinha, sinto logo um desejo incontido de contar tudo o que sei; de confessar os meus pecados, de revelar os pensamentos mais secretos e as coisas mais íntimas de minha vida. Eu que sou tão discreta diante de meu marido, de minha mãe, ou de meu pai, não posso me conter diante de ti, princesinha." E entram logo a falar... Vejo-me invadida por uma verdadeira onda de segredos que jamais poderei revelar. Tornou-se para mim torturante obsessão ouvir, a todo instante, queixas, ignomínias, mexericos, indiscrições. Sou, como diz o povo, uma Sangalu. É horrível! Temo, por vezes, enlouquecer. Afasto-me de todos, pois cada novo segredo, com seu cortejo de torpezas e misérias, envenena-me a vida e enegrece-me o coração!

Ao ouvir aquela surpreendente narrativa da filha, o califa pôs-se a fitá-la grandemente inquieto. Era preciso resolver, urgentemente, aquele caso. Como livrar Halina daquela perseguição diabólica? Como impedir que escravas, aias e damas da corte se aproximassem da cândida princesinha e lhe abrissem as torneiras venenosas de suas incomparáveis confidências?

Disse, por fim, o velho monarca fitando-a com uma fixidez que chegava a incomodar:

-- Escuta, flor de minha vida! Fácil será, para mim, um meio que ponha termo às tuas aflições. Quero, entretanto, prevenir-te de uma coisa. Ontem, conversando com o vizir Labid...

-- Não, meu pai! Não! -- bradou a jovem, e saiu a correr.

A desditosa princesinha percebera que o velho monarca, sob a influência mágica do Sangalu, esquecido de que falava à própria filha, ia contar-lhe, também, um segredo.

E não seria para ela uma desgraça ter conhecimento dos segredos que negrejavam a vida do pai?

O califa não fez o menor gesto para deter a filha. Deixou-a afastar-se. Viu-a entrar no pavilhão das Mil Violetas, e encaminhou-se para os seus aposentos situados no outro extremo do parque, emboscado na mancha espessa do arvoredo.

Mandou, no mesmo instante, viesse à sua presença, o esclarecido Abu-Mussa, seu vizir conselheiro, já em provecta idade.

Pretendia consultá-lo sobre o estranho caso de Halina. Era-lhe insuportável ver a filha, fadada a uma existência feliz e tranquila, transformada inopinadamente numa Sangalu, para viver amortalhada pelos segredos e confidências alheias. Abu-Mussa era um ulemá, isto é, um sábio capaz de resolver os mais obscuros problemas da vida.

E o califa disse, com voz grave e pausada, ao douto e sisudo vizir: 

-- Recebi, meu caro Abu-Mussa, uma denúncia secreta que me deixou impressionado. Fui aviso de que vive em nossa corte uma pessoa que possui o dom misterioso de Sangalu!

Respondeu o sábio, esteado em considerações luminosas:

-- Não creio, ó Emir dos Árabes, seja verdadeira essa denúncia. Não há segredo que resista ao poder da essência de Sangalu. Ora, uma pessoa dotada dessa mágica influência, isto é, um verdadeiro Sangalu, entraria na posse dos segredos mais graves, ficaria a par de todas as intrigas, de todos os planos, negócios e combinações. O Sangalu seria capaz de revolucionar o país. Imaginai, ó Príncipe dos Crentes, o poder extraordinário de um homem que tivesse conhecimento de segredos recônditos de todos os nossos generais. De que não seria capaz esse Sangalu tendo o exército, a polícia, a magistratura e os sacerdotes inteiramente entregues a seus caprichos? Muitos homens, tidos como honrados, seriam presos e decapitados; centenas de funcionários seriam demitidos; alguns ministros (que agora vivem no luxo e na opulência) teriam os seus bens confiscados pelo Estado; veríamos a ruína de muitos lares; anulações de casamentos; suicídios; assassínios; uma calamidade, enfim.

O califa Al-Mansur encarava, como infinito assombro, o seu honrado vizier. Este, depois de breve pausa, prosseguiu com a mesma entonação:

-- Tudo leva a crer, portanto, ser falsa a denúncia que chegou ao vosso conhecimento. E quereis uma prova segura da veracidade do que afirmo? Se houvesse na corte alguma pessoa (homem ou mulher, não importa!) com o poder de Sangalu, o trono de Bagdá já não estaria em vosso poder. Essa pessoa, com a força invencível dos segredos alheios, já teria provocado uma revolução e tomado conta do governo. Tal hipótese só não ocorreria se o dom de Sangalu tivesse recaído sobre pessoa dotada de bondade infinita e de uma força de caráter excepcional. Direi, enfim, que o Sangalu só não seria nocivo à coletividade se (como dizem os cristãos) fosse um verdadeiro santo, digno de ser posto num altar, e venerado por todos os crentes. Não acredito na existência de criatura capaz de apoderar-se de todos os segredos e fechá-los, para sempre, no cofre do coração. Penso, pois, que para tranquilidade do povo e segurança do Estado, qualquer pessoa (seja quem for) suspeita de Sangalu deve ser presa e executada inexoravelmente.

E o ancião acrescentou com impressionante serenidade esforçando-se por ser claro e decidido:

-- Alguém poderá objetar que seria clamorosa injustiça, crime odioso, verdadeira infâmia, condenar-se à morte um Sangalu inocente. Sim, mas diante dos interesses sagrados do Estado anulam-se e desaparecem, por completo, os interesses individuais. Se um inocente põe em perigo o Estado, se a sua existência é séria ameaça à coletividade, elimine-se o inocente! Há segredos, ó Príncipe dos Crentes, que, quando chegam ao conhecimento do povo, aniquilam coroas e arruínam os tronos mais poderosos.

As gravíssimas considerações aduzidas pelo velho ulemá deixaram o califa Al-Mansur mergulhado numa verdadeira tormenta de desassossego e perplexidade. "Este vizir", pensou o rei, "obcecado pela nefanda preocupação de defender o Estado, não hesitará em praticar a infâmia de mandar para as mãos impiedosas do carrasco a minha meiga e bondosa Halina. Aqui só há uma solução. Não me ocorre outra. Vou apunhalar este velho intolerante e mandá-lo para o túmulo com todas as suas teorias ignóbeis e revoltantes. O laço que não se pode desatar, corta-se. Este fanático será, de um momento para o outro, o algoz de minha filha; amanhã, convencido de que tem carradas de razão, exigirá do povo o sacrifício de Halina."

Desatinado pelos pensamentos que lhe turbavam o espírito, o califa de Bagdá , habitualmente tão sereno, chegou a levar a mão ao cabo do punhal.

Conteve-se, porém. Fez-se lívido. Flamejavam-lhe os olhos num brilho febril; as mãos tremiam. Sentia-se fortemente solicitado por duas paixões opostas; crispava os punhos num frenesi incontido. 

Por Alá! Um segredo apenas (a certeza, por todos ignorada, de que sua filha era Sangalu) já o impelia, naquele trágico instante, a praticar um crime covarde -- o assassínio de um ancião. Imagine-se, agora, se ele fosse um Sangalu, com o coração enegrecido por mil e um segredos tenebrosos?

E o califa, dominando o ímpeto sanguinário, simulando tranquilidade e indiferença, como um homem que teme e deseja saber, interpelou o vizir Abu-Mussa no tom mais natural deste mundo, anediando as barbas:

-- E esse mal de Sangalu é incurável?

-- Incurável não é -- afirmou o vizir, inclinando a fronte calva. -- Já chegou ao meu conhecimento o estranho caso de um homem que se livrou do mal de Sangalu.

-- Conta-me esta história, ó esclarecido taleb. -- acudiu pressuroso o rei. E pensou: "Enquanto ele narra decidirei se devo matá-lo agora ou mais tarde. Punir sem necessidade é atentar contra a clemência de Deus".

-- Escuto e obedeço, ó Comendador dos Crentes -- retorquiu o vizir com profunda vênia.

E, impenetrável e sombrio, narrou o seguinte: 

Esta história continua na postagem: "O Viajante Desconhecido" e suas sequências.

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