quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O BEM-HUMORADO povo nordestino e o universo temático do genial Ariano Suassuna!

Ariano Suassuna (Fonte: Internet)
EM TODO bairro, vila, cidadezinha do interior, aldeia, povoado, comunidades urbanas ou rurais há, ao menos, um avarento, beata, devoto, a recatada, o linguarudo, o contador de causos, o tímido, o expansivo; enfim está -- seja onde for -- ali representada toda a sociedade, com seus problemas, sua vida, seu cotidiano. Há também, nesses ambientes sociais, como também em ambientes de trabalho, esportivo ou escolar, apelidos que são dados pelo povo em razão de a pessoa possuir uma característica marcante, seja ela física ou psicológica. 

No lugar onde vivíamos, lá no interior do Pará, próximo à rodovia Belém - Brasília, de vez em quando recebíamos a visita de um homem, já maduro em idade, que era um show à parte. Damião era o nome dele, em torno do qual nós nos reuníamos para ouvir suas histórias, não importando se fatos ou causos.

Nunca soubemos, mas o velho devia ter origem nordestina. Não tendo família, seu Damião -- diferentemente da maioria -- tinha mais tempo para ler e, em função das conclusões que tirava de suas leituras, o Velho Damião também se ocupava em observar de maneira mais crítica as pessoas e suas respectivas condutas. Damião, o sangrador de onças, transformava todo esse saber em divertidos causos, para o entretenimento de seus ouvintes, que eram muitos na redondeza.

Do representante para o povo representado.

O meu irmão nordestino geralmente é possuidor da marcante verve humorística, com o seu sotaque peculiar dando um tempero todo especial às palavras naquela entonação quase cantada. O sertanejo, com o seu jeito de ser, é exemplo de sabedoria, malgrado suas vicissitudes, levando a vida com bom-humor. 

Não é à toa que as telenovelas ambientadas no Nordeste são garantia de bom sucesso junto ao público. O povo vai assistir com a certeza de boas risadas.

Pois bem. Acabei de ler o livro "O Santo e a Porca", do paraibano Ariano Suassuna, célebre autor de "Auto da Compadecida". Trata-se, como em geral cuida a sua obra, de uma peça teatral cujo enredo é ambientado no Nordeste brasileiro. 

De suas observações, Ariano levou para o palco, para os livros e para a televisão, o homem sertanejo e sua visão de mundo, e, como não poderia deixar de ser, o humor. Cuidou de transformar o cotidiano duro para a leveza do riso, e para tal retratou como poucos o avarento, o beato, o esperto, as relações sociais. 

Na peça há o avarento, e é natural que essa qualidade humana sempre seja encarada com antipatia. No caso, dado o exagero do personagem na sua avareza, a característica o torna divertido, engraçado. A exemplo do que ocorre em "Auto da Compadecida", com seu personagem João Grilo, há também aí retratada a figura de alguém cuja natureza é dotada de recursos para aproveitar-se das situações apresentadas para, por meio de mentiras inocentes, mudar a sorte dos personagens. E "O Santo e a Porca" está repleta de confusões, dada a avareza ao extremo de Euricão Engole-Cobra.   E é aí que entra Caroba.

Caroba é uma criada de Eurico Arábe, também conhecido por Euricão Engole-Cobra. Este é muito apegado a uma "porca", onde guarda todo o seu dinheiro. Os outros acham que seu apego ao objeto é por causa de ter sido a porca uma herança. Ao menos é assim que ele justifica o apego ao cofre, razão de o personagem não enxergar muito as situações; ele acha sempre que estão ali com a intenção de lhe roubar, motivo pelo qual não tem sossego de espírito.

O apelido em si torna o personagem mais engraçado. 

Dá ainda mais graça o fato de o avarento ser devoto -- e muito devoto -- de Santo Antônio, a quem continuamente pede proteção contra os ladrões. Daí o título da peça.

Sem ainda ter visto a peça -- via internet --, dei muitas risadas lendo o livro.

E um grande abraço ao povo nordestino, nosso irmão!

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