segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

União da Ilha do Governador: É Hoje




A MINHA alegria atravessou o mar
E ancorou na passarela
Fez um desembarque fascinante
No maior show da Terra
Será que eu serei o dono desta festa
Um rei
No meio de uma gente tão modesta
Eu vim descendo a serra
Cheio de euforia para desfilar
O mundo inteiro espera
Hoje é dia do riso chorar

Levei o meu samba
Pra mãe-de-santo rezar
Contra o mau olhado
Carrego o meu Patuá (bis)

Acredito ser o mais valente
Nesta luta do rochedo com o mar
(E com o mar)
É hoje o dia da alegria e a tristeza
Nem pode pensar em chegar

Diga espelho meu
Se há na avenida
Alguém mais feliz que eu (bis) 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

BLOGUE do Valentim há 6 anos!

Só por hoje


SÓ POR HOJE tratarei de viver exclusivamente este meu dia, sem querer resolver o problema da minha vida todo de uma vez; 

Só por hoje terei o máximo de cuidado em tratar os outros: delicado nas minhas maneiras; não criticar ninguém, não pretender melhorar ou disciplinar senão a mim; 

Só por hoje me sentirei feliz com a certeza de ter sido criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste; 

Só por hoje me adaptarei às circunstâncias sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos; 

Só por hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me que, como é preciso comer para sustentar o corpo, assim a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma; 

Só por hoje praticarei uma boa ação sem contá-la a ninguém; 

Só por hoje farei uma coisa necessária mesmo que não goste, e se for ofendido procurarei que ninguém o saiba; 

Só por hoje farei um programa bem completo do meu dia. E me guardarei bem de duas calamidades: a pressa e a indecisão; 

Só por hoje ficarei bem firme na fé de que a Divina Providência se ocupa de mim, como se existisse somente eu no mundo - ainda que as circunstâncias manifestem o contrário; 

Só por hoje não terei medo. Em particular, não terei medo de crer na bondade.
(Do calendário "Dízimo 2009")

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 23fev.2011)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CALIXTO Wilson e outros falsários

O caso da chave


O RELATO sincero do amigo Juvenal, relatado no dia anterior, ainda remoía na cabeça de Calixto Wilson. Encerrava o caso, além do dupla situação de fraude, a primeira ao sistema financeiro da habitação, e a segunda contra a disciplina dos quartéis, alguns ensinamentos. Dentre os fraudadores, um que não foi alcançado pela punição disciplinar coletiva aplicada pelo comandante, porque seu nome não constava da relação enviada ao comandante da unidade pela gerência local da Caixa Econômica. A suspeita de Juvenal de que o pilantra tivesse pago suborno a funcionário não era despropositada. Calixto bem chegou a conhecer o sujeito. Era o mesmo que passou a perna em muita gente, incluindo alguns oficiais,  e para um deles "vendeu" carro, automóvel esse que não lhe pertencia vez que ainda estava em nome de outrem. Para outros "vendeu" terrenos que não existiam. Após transferido, uma família foi parada na guarita da vila dos sargentos, com caminhão de mudança e tudo, e eles queriam tomar posse da casa que o sargento lhes havia "vendido", negócio feito mediante gorda parcela de entrada. Gente humilde que fora enganada por pessoa sem nenhum escrúpulo, que busca o vil metal a qualquer custo. 

Da mesma série: Risco calculado

Na segunda, o próprio Juvenal foi protagonista, pois, ao vento de circunstâncias favoráveis, fraudou o texto da punição retirando seu nome. De fato ficou preso, porém de direito nunca houve punição alguma, ao menos para ele. Paralelo ao episódio, há o caso do encarregado, e, pessoas como ele, Calixto conhecia muitas. O mundo está cheio de pessoas assim: impiedosas no trato com os mais fracos, porém subservientes nas relações com os poderosos. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

NEM é novidade

Escudo do Leão é 9º mais bonito



UM ELEITORADO estrangeiro, composto de diferentes nacionalidades, idades e profissões, participou de uma votação inusitada: escolher os mais bonitos escudos de times de futebol do Brasil. Na votação, Remo e Paissandu figuram entre os 25 mais bem avaliados. A votação foi proposta pelo blog “Pombo Sem Asa”, do jornalista Bernardo Pombo, no site Globo.Esporte, que contabilizou 100 pessoas votantes.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

BLOGUE do Valentim há 6 anos!

Conto de Escola


A ESCOLA era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia — uma segunda-feira, do mês de maio — deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant’Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão. 
Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes. 
Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos. 
            — Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre. 
Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco. 
— O que é que você quer?
— Logo, respondeu ele com voz trêmula. 
Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar. 
Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos. 
— Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
— Não diga isso, murmurou ele. 
Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma cousa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa particular. 
— Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.
— Que é?
— Você...
— Você quê?
Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma cousa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós. 
Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde... 
— De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.
— Então agora...
— Papai está olhando. 
Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as idéias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, dependurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer. 
No fim de algum tempo — dez ou doze minutos — Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim. 
— Sabe o que tenho aqui?
— Não.
— Uma pratinha que mamãe me deu.  
— Hoje?
— Não, no outro dia, quando fiz anos...   
— Pratinha de verdade?
— De verdade. 
Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dois tostões, não me lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não. 
— Mas então você fica sem ela?
— Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta? 
Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não conseguira reter nada do livro, e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos... 
Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma idéia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.  

Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a cousa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, mas parece que era lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria, — e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal, — parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, — mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação... Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma cousa, um cobre feio, grosso, azinhavrado... 

Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. — Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação... 
— Tome, tome... 
Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e — tanto se ilude a vontade! — não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo. 

— Dê cá... 
Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.
De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito. 

— Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
— Diga-me isto só, murmurou ele.

Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.
— Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.

Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.

— Venha cá! bradou o mestre.

Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.

— Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo. 
— Eu... 
— Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.

Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de cousas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados.

Aqui pegou da palmatória.

— Perdão, seu mestre... solucei eu.
— Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão!
— Mas, seu mestre...
— Olhe que é pior!

Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma cousa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!

Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror;  posso dizer que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.

Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa, coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma cousa?

" Tu me pagas! tão duro como osso!" dizia eu comigo.

Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na Rua larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.

Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dois meninos, tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos...

De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...

Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa: Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E, contudo, a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...

Machado de Assis


HOJE, dia 16fev., é dia do repórter. Parabéns a essa classe que nos deixa sempre bem informados.

TUDO que uma pessoa pode imaginar, outras podem tornar real. Júlio Verne
(postado no BLOGUE do Valentim em 16fev.2011)


LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CRAQUE nutella?!

APÓS o jogo entre Remo 2, Paysandú 1, ocorrido ontem (12fev2017).

Desculpem. Não resistir a postar essa capa do Diário do Pará.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

REMO e Paysandú: é hoje


A imagem pode conter: texto

ENTENDA por que o militar não pode estar sujeito à providência social comum


O SISTEMA de Proteção Social dos Militares é constituído por um conjunto integrado de instrumentos legais e ações afirmativas, permanentes e interativas de pagamento de pessoal, saúde e assistência integrada ao pessoal, que visam assegurar o amparo e a dignidade aos militares das Forças Armadas e seus dependentes, haja vista as peculiaridades da profissão militar. 


A condição militar, devidamente fundamentada por meio da Constituição Federal, submete esse profissional a condições muito peculiares, as quais não são impostas a nenhum outro trabalhador, seja da iniciativa privada ou até mesmo do próprio setor público. 

Isso acontece por que o Estado visa ao cumprimento de funções exclusivas, como a defesa da pátria e a garantia da lei e da ordem, as quais devem ser realizadas, independentemente da situação e localização. 

Dentre as peculiaridades da carreira militar, destacam-se: 

a) Risco de morte: 
Ao longo da sua carreira, o militar convive com diversas situações de risco. Seja nos treinamentos, na sua vida diária ou em caso de conflitos, a possibilidade iminente de um dano físico ou até mesmo de morte é característica inerente à sua profissão. 

b) Sujeição a preceitos rígidos de disciplina e hierarquia:
Ao ingressar nas Forças Armadas, o militar se submete a severas normas disciplinares e a estritos princípios hierárquicos, que condicionam sua vida pessoal e profissional. 

c) Dedicação exclusiva:
O militar ativo não pode exercer qualquer outra atividade formal, o que o torna dependente, exclusivamente, da sua remuneração e dificulta o seu posterior ingresso no mercado de trabalho, quando na inatividade. 

d) Disponibilidade permanente:
O militar se mantém disponível para o serviço ao longo das 24 horas do dia, sem ter direito a reivindicar remuneração extra ou cômputo de serviço especial. Além disso, o militar pode ser acionado a qualquer momento e à sua revelia para o cumprimento de uma missão. Mesmo quando na inatividade, o militar permanece vinculado à sua profissão. Os militares que compõem a reserva, conquanto tenham condições físicas e mentais, podem ser chamados para o serviço ativo em caso de necessidade do Estado. 

e) Mobilidade geográfica:
O militar pode ser movimentado independentemente da sua vontade, em qualquer época do ano, para qualquer região do país, indo residir, em alguns casos, em locais inóspitos e destituídos de infraestrutura de apoio à família. Essas mudanças de localidade por especificidade e necessidade do serviço, normalmente trazem prejuízos à família. 

f) Proibição de participar de atividades políticas:
O militar da ativa é impedido de filiar-se a partidos e de participar de atividades de cunho político-partidário, por se entender que os interesses do Estado brasileiro são superiores aos interesses partidários. 

g) Proibição de sindicalizar-se e de participar de greves ou de qualquer movimento reivindicatório:
O impedimento à sindicalização e à participação em greves decorre da necessidade de o militar estar sempre pronto para as missões que for designado, já que as Forças Armadas representam a última fronteira da legalidade. 

h) Restrições a direitos sociais:
O militar não usufrui de alguns direitos sociais, de caráter universal, que são assegurados aos demais trabalhadores, dentre os quais se incluem: 
- remuneração do trabalho noturno superior à do trabalho diurno; 
- jornada de trabalho diário limitada a oito horas; e 
- remuneração de serviço extraordinário, que extrapole as oito horas diárias estabelecidas pela Constituição Federal como limite ao trabalho normal para as demais categorias. 

No que tange ao pagamento dos militares ativos, o Art. 142 da Constituição Federal prevê que compete à Presidência da República a iniciativa de Lei sobre a remuneração do militar das Forças Armadas. 

Atualmente, a Medida Provisória n° 2.215-10/2001, regulamentada pelo Decreto nº 4.307/2002, define os direitos pecuniários dos militares. 

A remuneração dos militares tem como um dos seus propósitos primários a valorização da profissão militar, em consonância com a Estratégia Nacional de Defesa. Dessa forma, ela visa proporcionar dignidade para o militar e sua família, e também contribuir para a retenção de pessoal devidamente qualificado e capacitado nas Forças Armadas. 

No que se refere ao pagamento dos militares inativos, a Lei que trata das regras para a inativação e dos respectivos direitos pecuniários também é de iniciativa da Presidência da República. 

A Lei n° 6.880/80, denominada Estatuto dos Militares, define as condições para a transferência do militar para a inatividade, enquanto a Medida Provisória n° 2.215-10/2001 define os respectivos proventos. 

Diferentemente dos demais trabalhadores e dos servidores públicos, o militar não se aposenta. Na verdade ele passa a constituir uma força de reserva, permanecendo sujeito ao mesmo regulamento disciplinar do militar ativo, o que o diferencia de qualquer outra profissão. 

Essa força de reserva faz parte de uma estrutura de defesa que permite que uma vez reconvocados, os militares retornem à ativa para as tarefas de base, em especial, as de logística e de instrução de novos contingentes. 

O pagamento dos militares inativos faz parte de um conjunto de medidas que têm como principais objetivos:

- atrair e reter aqueles que voluntariamente se dedicam a servir o Estado;
- compensar os sacrifícios praticados durante a carreira;
- remunerar aqueles que, mesmo na reserva, permanecem disponíveis ao serviço do Estado;
- proporcionar dignidade àqueles que se dedicaram à prontidão para o combate e que, por características da profissão, não estão mais aptos para o serviço militar e tampouco encontram disponibilidade no mercado de trabalho. 

A Pensão Militar é prevista pela Lei nº 3.765, de 4 de maio de 1960. O militar contribui com 7,5% de sua remuneração básica, até seu falecimento, para ter o direito de legar pensão por morte aos seus beneficiários instituídos, inexistindo a contribuição patronal por parte da União. 

A Pensão Militar se traduz como um “seguro estatal”, para que o militar aceite a exposição ao risco, pois tem a garantia de provimento e manutenção de sua família, no caso de sua morte. Assim sendo, ela não é dependente de um fator de receita e despesa, tendo em vista os riscos de morte e invalidez precoces, decorrentes da profissão militar. 

Dessa forma, o Estado brasileiro assume o custo com as pensões, independentemente do tempo de contribuição, pois não seria viável a acumulação e capitalização dos recursos para aqueles militares que falecem ou se invalidam precocemente. (Fab)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

BLOGUE do Valentim há 5 anos!

Fandango em Dois Vizinhos


DOIS dias depois de retornar da minha cidade, a morena Belém do Pará, estávamos eu e minha companheira num animado fandango. Quem animou o bailão foi o divertido grupo Os Bilias.

As fotos abaixo ilustram o acontecimento.



Estou, na verdade, fazendo hora, arranjando um jeito de, conforme já prometi aqui neste espaço, contar algo sobre o que vimos em Belém. Na verdade, na verdade, o que vimos não foi bom. Como paraense, gostaria de contar coisas boas.

Bem, amanhã ou outro dia falarei, assim que arranjar coragem para tal. 


Para quem nada espera, o pouco muito representa. Gonçalves Ribeiro

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

(BLOGUE do Valentim em 10fev2012)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

CHICO Buarque

Julinho da Adelaide: Jorge Maravilha



E NADA como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não

E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais sobrevoando

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Ela gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócega
Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

E nada como um dia após o outro dia
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando até quando, não, não, não

E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando

sábado, 4 de fevereiro de 2017

CAMISA do Remo é eleita a mais bonita de 2016



APÓS uma semana de votação que envolveu camisas de outros times do Brasil, o site Guia do Boleiro, do portal IG elegeu as mais bonitas de 2016 e entre as escolhidas, está o segundo uniforme do Clube do Remo(Diário do Pará em 03fev2017) 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

PARAENSIDADE em família!





















Ao lado desse grande artista de rua, o Tititica



Enfim, família reunida: Walter Valentim, Manoel Valentim Jr., dona Maria Ferreira Moreira,
Antonia Boyce, Antonio Valentim e Levy Moreira