CARTAS do Front

A fina flor da juventude brasileira



QUANDO eu digo que nós da Tarjeta Branca, turma 171, éramos do jardim da infância pode parecer exagero a muitos que não viveram na condição de aluno da Escola de Especialistas naquele biênio, final da década de 1970. Em outras palavras, também dizia-nos o mesmo o Professor Evandir (essa profissão deve ser grafada por extenso, tal era a grandeza daquele profissional que nos ministrava Educação Física):

"Vocês são a fina flor da juventude brasileira".


Pois bem, estávamos todos no galpão de escreventes. Entre uma aula e outra, o intervalo se constituía em festa, tal a algazarra (ainda se diz assim?) que promovíamos. Uma delas era os apelidos que eram atribuídos (e o autor da maioria dos apelidos era o Délio, o nosso zero um) a vários de nós.

O que mais sofria era com certeza o Vieira Lima, cuja alcunha era "porco" por causa da sua fisionomia que lembrava vagamente um suíno. Também havia o "mula", que era o Antunes por causa do seu queixo volumoso. Outro era o Maia, que ganhou do Délio o apelido de "caranguejo". Eu levei o apelido de "pato", talvez em razão do formato de nariz. Por fim, havia o "lua", e o Cosme foi premiado com esse nome por causa do seu rosto cheio que lembrava a lua cheia.

Mas não ficava só aí, entre nós, alunos. Sobrava também para os sargentos (sem que eles soubessem, evidente). O sargento Expedito foi batizado com o nome de "bule" devido ao seu jeito de fazer a posição de sentido, sempre com as duas mãos juntas ao corpo na altura do umbigo, igual ao utensílio doméstico de café. O Délio, mal dava o intervalo, e fazia a imitação do primeiro-sargento, e nós ríamos muito. O Reis, por ser meio gago, e por dar aula de Contabilidade Financeira, era o "fic-fat".

Uma vez, dado o intervalo, ficamos na sala fazendo a costumeira bagunça e zoando uns dos outros, quando alguém soltou um. Foi justamente aí que o sargento Vesaro entrou na sala a pretexto de alguma coisa e, passando a mão em frente a cara como que na tentativa de afastar o mal cheio característico e inevitável, censurou-nos:

-- Vocês não sabem conviver em coletividade.

Vesaro era o sargento mais azedo e antipático do Curso de Escreventes. Depois que ele virou as costas, demos muita risada.

Vocês lembram disso, Jeronimo Giglio Lopes, Adão Paulino da Silva, Paulo Sergio Silva, Clemente Nilton e Délio Gonçalves Rocha?

Ou vão me deixar mentir sozinho?


Falando em colegas, alguém sabe por onde anda o Arivaldo? Será que é o Arivaldo Menezes Marques, delegado, que localizei na Internet? Ou o delegado é só um homônimo? Se alguém souber...
* * *

O CASO da piscadela




POR UMA questão de honra, foi meu propósito chegar à primeira colocação no Estágio de Adaptação que realizei em Belo Horizonte, missão a que me candidatei em 2000, tão logo fora promovido à graduação de suboficial em dezembro de 1999.

Preparei-me com afinco para isso, focando a nota dez em todas as disciplinas exigidas. Meu pensamento era que, focando no máximo, e, não obtendo essa pontuação, chegaria aos nove e meio ou próximo disso. Diante dessa performance, certeza era ser aprovado.

Língua Portuguesa e Literatura eram duas das disciplinas cobradas pelo concurso. Eu sempre fui bom em Português, razão pela qual meu pensamento era não dedicar tanto tempo a essa área. Pois bem. Um colega convocou a mim e a mais alguns colegas para estudarmos em uma sala de aula de uma escola lá da quadra 214 Sul. Resolvi ir. Falei comigo mesmo que "se aprendesse uma coisa sequer a mais já teria tido um ganho, ainda mais se pudesse passar algum conhecimento para os colegas". Com esse espírito, fui e aprendi muito mais do que já sabia, além de ter a graça de passar muito mais aos outros irmãos com quem partilhava aquele tempo à noite, duas vezes por semana.

Nem só de virtudes, porém, compõe-se o bicho-homem. 

O escriba estava lá na Pampulha, bancando novamente o aluno, isso depois de quase 22 anos. Para atingir o objetivo que eu mesmo secretamente me impunha havia o famigerado teste físico, área em que eu precisava treinar de forma mais intensa. E este índio que vos escreve já não era um garoto, com os seus 40 novembros. 

Precisava para alcançar o grau 10,00 de uma marca, tantas voltas, tantos metros, dentro dos doze minutos estabelecidos. Fiz um teste na primeira semana em que chegamos ao Centro e me faltou ainda alguns bons metros. Não valia nota, era só para cada um saber das suas reais condições físicas. O teste definitivo, valendo nota, seria só em maio. Impus a mim mesmo que treinaria dia sim, dia não, não descansando até atingir a marca indicada para a minha faixa etária. Era questão de honra. Faria isso ao final das atividades, entre as aulas teóricas e práticas e o jantar.

Foi o que eu fiz.

Até que chegou o dia do teste físico.

Naquela manhã ensolarada e quente do final de abril estávamos todos lá no campo de futebol daquela Escola, aguardando a hora determinada para iniciarmos a corrida com o tempo de doze minutos. Considerando a minha faixa etária, tinha que atingir a marca para conquistar a nota máxima, requisito fundamental para conseguir o objetivo proposto.

Mas nada cai do céu para mim, assim de mão beijada. Tudo requer esforço e me acostumei a driblar as situações adversas, a superar os obstáculos que insistentemente aparecem no meu caminho. 

Sempre foi assim, e ali não seria diferente.

Para complicar mais, a organização do teste atrasava a cada grupo que praticava a corrida, e o meu era o último a se apresentar. Com os atrasos acumulados a cada equipe, dez ou quinze minutos, nosso grupo ficou para o meio-dia, um horário pra lá de ingrato, tempo inclemente, hora da fome. 

Chegou finalmente a nossa vez e me pus a correr. 

Correr...

Adotei por método de corrida deixar o pensamento fluir, o cérebro a imaginar mil e uma coisas e fatos. Enquanto as pernas trabalhavam, lá se ia a pensar na família, nos planos futuros da carreira, na política nacional, em futebol, em religião... Enquanto a mente vagueava livremente, as distâncias iam sendo vencidas com facilidade. Nem me dava conta do cansaço das pernas e do extraordinário trabalho cardiovascular que aquelas voltas exigiam de mim.

Ocorreu, porém, que, ao me faltar talvez uma volta e meia, quase duas, percebi que o tempo limite estava quase por estourar. Notei que já estava nas últimas, e, embora me esforçasse, todo o repertório já se esgotara, e, mesmo que não, não conseguiria mais iludir toda a máquina que se chama corpo humano, que tem lá seus limites. Vi que dificilmente conseguiria a marca exigida.

Foi quando me aconteceu algo inusitado, que a memória até hoje não me deixa esquecer.

Imaginando já que não conseguiria fechar o grau máximo, estava a me aproximar do marco inicial da corrida, o ponto de partida. Em meio ao grupo de oficiais encarregados da prova, notei a presença de uma segundo-tenente. Era da primeira turma de oficiais temporários da área de Educação Física, uma sulista muito bonita e - também por isso - bastante popular entre os alunos da minha turma. A tal china era uma beldade, uma morena daquelas de parar o trânsito.

Em estado lastimável, passei em frente ao grupo quando, dentre aqueles dez ou doze marmanjos que ignorei, lancei meus olhos contra os da china. A guria mirava também para mim, correspondendo aos meus olhares masculinos. Foi naquela fração de segundo que ganhei da chinoca uma piscadela sensual - ao menos isso me pareceu.


Com o peso da idade em que me encontrava, percebera eu, havia algum tempo, que a vida me determinava agora a encilhar o matungo da prudência, e trilhar mansamente as veredas da calmaria, diferentemente de antes.

Ora, se o inesperado episódio viesse a ocorrer alguns anos antes, diante daquela situação inusitada, é certeza que seria levado a montar no tordilho negro da falta de juízo e galopar alopradamente na estrada da loucura. A china era uma tentação de mulher, mas, com estava em corrida - e em serviço - não tinha como manter o olhar nos olhos da guria. Mas aqueles olhos ficaram comigo.

Segui adiante, e, com a piscadela daquela gaúcha a povoar meu imaginário em vez de política e futebol, vencer a volta e meia que faltava não foi tarefa difícil. Pois foi justamente aquela piscadela sensual que injetou em minhas veias o sangue faltante e necessário para percorrer o espaço restante no tempo determinado. Nota dez e o primeiro lugar alcançado.

E a china? Não lembro mais o nome, nem sei de que região do Rio grande era, se da capital ou do interior. Também não sei sua origem, se alemoa, italiana, polaca ou açoriana.

Por onde anda? Não sei, mas é quase certo que virou a cabeça de tanto marmanjo. A minha seria mais uma, se nalgum tempo atrás. 



(BLOGUE do Valentim em 22set.2016)



* * *

SARGENTO Tarcísio



NA MAIOR parte desses mais de 30 anos de minha carreira na FAB exerci atividades na área de recursos humanos, o que me deixou muitas vezes com o senso de realização, a consciência do dever cumprido. Uma das razões da alegria que sentia era em razão da oportunidade que tinha em servir ao meu próximo. Além da mera obrigação funcional, ver o sorriso de agradecimento no rosto alheio era para mim uma coisa que nunca teve preço.

Uma das minhas manias era saber de memória o nome completo de boa parte do efetivo da Unidade. Não só da unidade, mas alguns outros nomes me ficaram na memória até hoje.

Um dia em Belém, vi saindo do cassino de suboficiais e sargentos uma figura muito conhecida de todos nós, que convivemos juntos aqueles dois anos na Escola.

Gritei: "Tarcísio Rodrigues de Farias!!!". O suboficial Tarcísio voltou-se pra mim e me abraçou. Emocionado, respondeu: "Vê, Valentim", apontando para o antebraço esquerdo, "Estou até arrepiado".

O fato de eu o ter reconhecido, travado diálogo com ele, e ainda por cima ter lembrado de seu nome completo o emocionou, emocionando também a mim, que admirava o jeitão espontâneo daquele sargento que nos dava instrução de DL-AT e de Regulamentos, intercalando sempre com alguns palavrões, que, longe de nos ofender, deixavam o ambiente relaxado. Divertíamos-nos com ele.

Ainda lembro que havia sempre alguém, para provocá-lo e também para que todos desse risadas, que perguntava: "E o bizu, sargento?". "Bizu é..." - respondia Tarcísio numa rima conhecida.

E a risada era geral. (BLOGUE do Valentim em 05mar.2015)



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PRIMEIRA refeição na Escola


Por Nicanor Crisóstomo, via Facebook

ANTES de entrar pra EEAR, sempre aparecia um amigo mais velho ou um tio me contando como era a vida no Exército de quando eles tinham servido. Eles contavam coisas horrorosas de como era feita a comida, de levantar cinco horas da manhã e tomar um banho gelado. Pintavam um quadro bem pior do que era.

Quando eu cheguei na Escola estava esperando por coisas terríveis lá dentro. Chegando lá e deu a hora do jantar, o tenente Cleiton, que estava de oficial de dia ao CA, veio até à gente ditar suas regras: não era pra deixar comida na bandeja, o que pegasse tinha que comer. E entre essas regras vinham junto algumas ameaças. Quando entrei no rancho eu pensei que ia encontrar um camarada servindo arroz e feijão tudo misturado dentro de um tacho e só, nada mais. Quando entrei vi o arroz, salada, feijão, achei tudo maravilhoso e nem vi que tinha um taifeiro servindo carne, mas vi que tinha um servindo um purê. Peguei a comida e fui sentar, misturei aquele purê na comida e levei à boca. Quando senti o gosto da comida, nunca tinha posto nada tão horrível na boca. Daí eu lembrava do sermão do ten. Cleiton, então colocava a comida na boca, tentava fazê-la descer, sem mastigar, tocando o mínimo possível minha língua pra não sentir o gosto. Do meu lado havia uns colegas comendo frango e eu pensei: onde será que eles pegaram esse frango? Mas a minha vontade era de terminar aquele prato horrível e sair dali o mais rápido possível.

Ao chegar na esquadrilha, estava pensando em como ia conseguir comer aquilo por dois anos inteiros, mas do meu lado havia dois colegas conversando em como estava boa a comida e dai um fala: e aquele doce de leite então, estava o máximo. Foi só ai que eu cai em mim e vi que tinha até sobremesa, eu jamais ia imaginar que haveria sobremesa e misturei o doce de leite com toda a comida achando que era purê. Coisa de bicharal mesmo. Só agora estou contando isso pra não morrer comigo. Pronto, agora podem me sacanear. 
(BLOGUE do Valentim em 23jul.2015)


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MEU amigo Brito!



NO NOSSO tempo de Escola de Especialistas existia um professor de Português. Ele, cujo nome não me sobreviveu na memória, era uma figura. Tinha para cada assunto a ser ensinado um exemplo engraçado ou curioso. No caso da pontuação, uma vez nos ensinou sua importância para que um texto não produza ambiguidade e assim deixe de cumprir a sua finalidade: estabelecer uma comunicação.



Era o caso da pitonisa, que, consultada pelos membros da corte de Alexandre, o Grande, sobre uma grande viagem do imperador para umas terras distantes em missão de interesse de seu país: conquista, guerra. Queriam saber da pitonisa se Alexandre e seu exército sairiam vitoriosos. Ela escreveu assim: "Irás voltarás não morrerás lá". Alexandre morreu nessa guerra. Inconformados com esse resultado, os mesmos assessores voltaram à pitonisa e ela, defendendo-se, disse que eles não haviam esperado a pontuação. O pequeno texto, pontuado, ficaria assim: "Irás. Voltarás? Não. Morrerás lá."



Ainda sobre a vírgula o professor costumava contar um causo. Dois homens conversando e um deles se chamava Parente. Apontando para um cachorro, o outro costumava falar ao primeiro: "Aquele cachorro é seu Parente?". Dizia assim sem enfatizar a pausa, a vírgula se fosse numa comunicação escrita. Dessa forma ele tanto poderia estar mencionado o nome "Parente" do amigo, o vocativo, e perguntando se o Parente era dono do cachorro, ou também, não usando a vírgula entre o pronome possessivo ("seu") e o nome próprio "Parente', indagando se o animal era parente desse amigo seu.


Uso esses exemplos para chegar ao amigo Alexandre Soares de Brito, o poeta. Certa tarde, não lembro se na primeira, segunda, terceira ou quarta série, estávamos correndo curto na estrada que vai da Vila dos Sargentos à outra estrada que dá entre a Escola e o hospital. De longe ao nosso lado direito ia uma jovem, que a julgar pelos atributos corporais, prometia ser uma beldade. Diante desse fato relevante, a tropa - naquele tempo exclusivamente masculina - dirigia os olhares para ela, olhando à direita, ainda que o guia ou o comandante da tropa não tivesse comandado ordem alguma nesse sentido. Não precisava. Ao passar pela moça, todos se decepcionaram pois seu rosto não correspondia ao que mostrava o restante do corpo. O Brito, que naquele tempo já era um poeta, veio com esta: "Última forma nos olhares lânguidos." Demos uma boa risada.



Mais tarde, talvez vinte e um anos depois, estávamos nós novamente como colegas. Desta vez em Belo Horizonte, realizando um estágio que nos garantiria seguir a carreira até a patente de capitão. Estava lá o mesmo poeta Brito, com a diferença de mais experiente, mais sábio, mais amigo.



Este escriba, para incomodá-lo e imitando o causo do professor de Português da Escola, brincava com o seu nome: "Vem cá, Brito." Dava pouca ênfase à vírgula de propósito para ficar assim como "Vem, cabrito", numa ambiguidade pensada.



Brito sempre foi um grande amigo nosso, e, sendo essa sua natureza, certamente que sempre o será.  (BLOGUE do Valentim em  17ago.2015)



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SARGENTO Caveirinha



EM MINHA época de Escola de Especialistas, final da década de 1970, havia um primeiro-sargento cuja figura me ficou indelevelmente marcada na mente. Aliás, todos os alunos daquela época jamais esquecerão do sargento Rodrigues, o Caveirinha, apelido ganho graças à sua aparência incomum, à fama de sargento mau e ao rigor em que agia como instrutor de Ordem Unida para todo o Corpo de Alunos, constituindo-se o terror daqueles alunos de primeira série. Feio (feio, não: horrível), hoje seria comparado ao "Seu Madruga", do seriado mexicano Chaves.


A maioria de nós, aquele meio milhar de jovens oriundos de todas as partes do Brasil, era egresso da vida civil, nada entendendo de militarismo. Não sabíamos discernir nada, e devíamos aprender tudo num curto período de dois ou três meses a fim de prestarmos o compromisso de juramento à Bandeira, uma obrigação regulamentar imposta a todo brasileiro que ingressa nas forças armadas brasileiras. Exceção era feita aos jovens que antes eram soldados ou cabos, que já vinham escolados, porém tinham que passar igualmente por todas as instruções, quer fossem teóricas (regulamentos) ou práticas (ordem unida).



Caveirinha, sujeito magro, cara chupada e espesso bigode, era o sargento mais afamado e mais temido entre a alunada. Pegava no pé especialmente daqueles que tinham dificuldade motora, e que, muitas vezes pelo nervosismo natural, não discerniam entre "direita volver" ou "esquerda volver", nem acertavam o passo ao marchar, e muito menos tinham habilidade com o manuseio do armamento, que naquela época era o velho e pesado mosquetão usado na primeira guerra. Caveirinha não deixava passar qualquer deslize, e com isso a turma ficava mais nervosa e trêmula. Para nós, a impressão que ficava era que ele se comprazia com o nosso sofrimento.



A respeito de sua figura, as anedotas e situações folclóricas também eram recorrentes. Consta que certa noite, os grupos de alunos estavam no pátio do rancho para a ceia, que, pelo boato que corria sobre adicionarem algum remédio no chá para aliviar os hormônios, era também conhecida pelo singular nome de "brochante". Em geral, os grupos formavam por turmas ou séries, da 4ª série, aqueles que estavam no último semestre do curso, à primeira série, ou os "bicharais", como eram jocosamente chamados por todas as outras turmas. O aluno mais antigo de cada série se encarregava de por em forma a todos de sua turma e os apresentava ao sargento-de-dia, que estava lá para supervisionar a disciplina. Justamente naquela noite o sargento-de-dia era o Caveirinha. 

Ocorreu de o mais antigo da primeira série presente ser o Orival, popularmente conhecido por "Catarina", em parte pelo seu sotaque inconfundível de catarinense. Um aluno de quarta série orientou que o Catarina pusesse o grupo em forma, o que ele fez dando uma sequência de "sentido, cobrir, firme!", e apresentasse a turma ao sargento Caveirinha.



Foi então ele:



- Com licença, sargento Caveirinha!

- Aluno Orival apresenta a primeira série pronta para o brochante.


O caveirinha, impassível, e olhando firme para a cara do bicharal, saiu-se assim:

"Aluno, em primeiro lugar o nome da refeição não é "brochante" e sim "ceia". E em segundo lugar...


...Caveirinha é a puta que te pariu!!!" 

No entanto, tudo ficou por isso mesmo. O sargento não levou adiante o fato - transgressão disciplinar -, sabendo que se tratava apenas de bisonhice do Catarina - coisas de bicharal -, que caiu na armadilha do quarta-série. Era um cara bom, um grande profissional que fazia bem o seu trabalho. 

Jamais o esqueceremos, sargento Rodrigues. 
(BLOGUE do Valentim em 08fev.2015)



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ÀS MARGENS do rio Xié


DURANTE minha carreira de três décadas na Força Aérea Brasileira tive pouquíssimas oportunidades de viajar a serviço. Minha experiência maior é pelo fato de ter sido movimentado por seis vezes. Primeiro Anápolis, depois Boa Vista, Manaus, Belém, Brasília e, por último, Belém de novo.

Por sinal, boa experiência. Assim conheci grande parte do território auriverde, que chamamos de Brasil.

Além disso, posso considerar a experiência na localidade de Cachimbo, para onde íamos em missão a cada quinzena, em revezamento. Isso ocorreu durante dois anos. Uma equipe ficava na sede da Unidade, em Brasília, enquanto a outra permanecia em Cachimbo. Creio que essa foi a minha grande experiência em viagens. Uma grande exceção na carreira.



Por ser de uma especialidade de apoio e não das que lidam diretamente com a aviação, quase não saí de sede. Uma vez, quando estava em Manaus, tive oportunidade de viajar por duas vezes. Isso foi na década de 1980. Uma viagem para a rota do rio Solimões, chegando a Tabatinga, fronteira com a Colômbia. 

Noutra vez, fiz a rota do rio Negro, chegando a Yauaretê, lá na "Cabeça do Cachorro".


Embarquei naquele C115 Búfalo. Minha missão era fazer pagamento para alguns funcionários da COMARA, talvez cinco ou seis, que permaneciam nessas localidades longínquas e isoladas do Brasil. Nelas não havia, a não ser a pista de pouso precária, missões religiosas e um pelotão de fronteira do Exército Brasileiro, nada de organizado, nem banco nem correios. Tudo dependia do avião.



Em Cucuí, por exemplo, além de víveres e outros objetos, foram entregues cartas aos militares do Exército e suas famílias. Fazia três meses que não mantinham contato com o restante do país. Esses são verdadeiros heróis.


Região conhecida nos meios fabianos como
 "Cabeça do Cachorro" 
por cujo desenho
 lembrar no mapa a cabeça do animal


Numa determinada localidade, fiz uma missão especial que muito me marcou. Depois de fazer o pagamento ao guarda-campo local, recebi deste um documento para ser entregue na Seção de Pessoal Civil do Sétimo Comando Aéreo Regional, Unidade em que servia escriba.

Era uma certidão de nascimento de seu filho mais novo. Ele deve ter viajado muito até o cartório mais próximo para conseguir tal registro civil. Provavelmente em São Gabriel da Cachoeira.

Pude ler então, por mera curiosidade, o local de nascimento do garoto: "às margens do rio Xié". Nada lembro sobre o nome do pai, o tal funcionário, mãe, tampouco do nome do garoto. 

Nunca até então soubera da existência de tal lugar. Jamais em minha vida tinha me deslocado a lugar tão remoto. Foi lá que eu vi os índios fazerem farinha de mandioca, tal qual o meu povo ainda o faz lá no Pará.

Há quanto tempo se produz farinha de mandioca assim? Essa pergunta me veio à cabeça de imediato. Talvez há milênios.

Sim, eu estive lá. Nas margens do rio Xié, e as águas negras daquela região são testemunhas desse fato.




Até que parei em Dois Vizinhos, sudoeste do Paraná. E aqui fiquei.

(BLOGUE do Valentim em 07ago.2016)

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